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Bispo do Porto diz que a Igreja enfrenta desafio da mudança
D. Manuel Clemente fala numa «inevitável reconfiguração da comunidade cristã»

 

D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, considera que a Igreja Católica em Portugal vai enfrentar uma “inevitável reconfiguração da comunidade cristã”. O prelado falava em Fátima, diante do Colégio Internacional das Equipas de Nossa Senhora.

Numa conferência dedicada à situação da Igreja no nosso país, D. Manuel Clemente assinala que “a capacidade das paróquias e outros centros comunitários de integrarem uma população cada vez mais fluida nos percursos individuais e familiares é efectivamente reduzida e, nalguns casos, cada vez mais problemática”.

A Igreja enfrenta “dificuldades em formar e manter comunidades fixas numa sociedade tão fugaz e movediça como a actual”, em que as “redes” de comunicação, “concretamente televisivas e informáticas, não se definem em termos territoriais”.

O Bispo do Porto considera que, “com a normal resistência da religiosidade arcaica e realmente pré-cristã, que continua a ter como únicos artigos do seu credo ‘a terra, o sangue e os mortos’ – prevalecendo a terra e a capela de cada grupo, os laços do sangue e o descanso dos respectivos falecidos -, as grandes propostas do Concílio Vaticano II vão tendo alguma recepção, como o actual contexto sociocultural mais exige”.

Neste contexto de mudança, D. Manuel Clemente destaca a importância de Fátima, “um grande centro espiritual, verdadeiramente nacional, tanto como internacional”, com os seus mais de 5 milhões de peregrinos anuais.

“Desde 1917 e crescentemente, esta é uma particularidade do catolicismo português, que se encontra e revê no grande centro mariano. Além das presenças ocasionais, dificilmente definíveis em termos de ortodoxia e ortopraxia, Fátima atrai um crescente número de peregrinos, de variadas condições sociais e culturais; acolhendo, aliás, todo o tipo de celebrações e cursos de índole pastoral, abertos à participação de crentes do país inteiro”, prossegue.

O prelado lembra ainda que a Igreja em Portugal conta com centenas de associações de fiéis da mais diversa índole, do estritamente “religioso” ao “mais abertamente social e sócio-caritativo”.

“É também por aqui que a Igreja Católica mais se aproxima da sociedade e dos seus problemas, como é geralmente reconhecido. No entanto, é crescentemente difícil garantir a sucessão dos responsáveis dessas associações, também por causa das múltiplas deslocações de residência ou trabalho, ou por alguma resistência ao compromisso, tão própria da atmosfera pós-moderna, individualista e errática, geográfica e mentalmente”, alerta.

O Bispo do Porto fala ainda de múltiplas “acções de evangelização de grupos, movimentos e famílias, com grande empenho e criatividade laicais”. “Podem ser famílias que transformam os seus lares em pontos de acolhimento e partilha cristã nos respectivos prédios; podem ser acções conjuntas de evangelização e missão popular, envolvendo paróquias, congregações e movimentos; podem ser novas formas de missão à distância, com geminação de paróquias europeias e ultramarinas; podem ser “sítios” e ‘blogues’ na Internet… De tudo um pouco se vai constatando em Portugal”, assinala.

“Estas e outras realidades do catolicismo português contemporâneo revelam a sua considerável vitalidade, mas não resolvem para já o problema pastoral acima indicado, isto é, o da reconfiguração comunitária da vida cristã”, indica.

Assim, e apesar de “um certo lastro cultural católico, que explica a persistente identificação do país com esta tradição religiosa”, é cada vez mais difícil a “ligação persistente a uma comunidade situada, particularmente no aspecto religioso”.

“Mais fácil é, para muitos, individualizarem a prática, indo a sucessivos locais de culto, mesmo a um grande santuário como Fátima, ou praticarem de longe em longe nalgum lugar onde se sintam bem, pela mais diversa e subjectiva ordem de razões”, observa.

Citando números divulgados pela Agência ECCLESIA, o prelado lembra a quebra sucessiva no número de padres e seminaristas. O quadro traçado por D. Manuel Clemente não deixa, contudo, de ser pintado em tons optimistas: “Há muita gente, de mais ou menos idade, a redescobrir a dimensão eclesial da fé, com antigas e novas formas comunitárias. Ou inovando dentro das antigas, tomando a paróquia como ‘comunidade de comunidades’ e ‘família de famílias’. Sucedem-se as iniciativas de âmbito interparoquial e diocesano, com participação de seculares e religiosos, famílias, movimentos e grupos, valorizando também o ‘carisma’ e o modo próprios de cada um”.

“Alargam-se os laços inter-missionários, para longe e perto, em reciprocidade nova de presenças e contributos. Arrisca-se e inova-se alguma coisa no campo da cultura e da arte, a partir da Universidade Católica Portuguesa e de outras instâncias eclesiais. Mantêm-se com abnegação e consistência muitas acções no campo sócio-caritativo. Com tudo isto se ‘lançarão as redes’, mesmo que ainda não divisemos bem a nova malha em que se entrelaçarão”, assegura.

 

Ecclesia
23/07/2008

 

 

 

 

 

 

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