É imperativo dar carta de cidadania à família nas sociedades modernas
Adverte o sociólogo italiano Pierpaolo Donati
Por Gilberto Hernández
A sociedade espera que os indivíduos sejam bons cidadãos e que contribuam para que a própria sociedade humana cresça e se fortaleça, mas de onde vêm os indivíduos, se não é da família?
Mundial das Famílias, no qual tratou da questão da família como geradora de virtudes sociais.
Sua resposta foi clara: se a sociedade não é capaz de reconhecer a família e de ajudá-la a ser fiel à sua vocação, como instituição fundante da sociedade, dificilmente poderá haver indivíduos íntegros.
Donati, fundador da sociologia relacional, assegurou que a família se concebe como um lugar de harmonia, mas pouco se valorizam as contribuições que oferece realmente à sociedade.
«Devemos entender que a família é operadora na sociedade, que transforma as virtudes pessoais em virtudes sociais», assinalou o catedrático de sociologia da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Bolonha.
É evidente que muitas vezes as virtudes que se vivem dentro da família nem sempre transcendam à esfera pública, advertiu Donati, que dirigiu o Observatório Italiano sobre a Família. «Uma família pode ser acolhedora, mas se não é consciente da função pública que esta virtude tem para a sociedade, não será capaz de transmiti-la à própria sociedade», assinalou o palestrante, membro da Academia Pontifícia de Ciências Sociais.
A família não é uma mercadoria
Na família, indicou, aprende-se a reconhecer o outro e se entrega o dom da própria presença. «O exercício das virtudes pessoais no interior da família leva a viver instintivamente as virtudes que beneficiarão a sociedade em seu conjunto», afirmou Donati.
O palestrante expressou que a sociedade atual nega esta função social da família, e mais ainda, diz que não é fonte de virtudes, mas de vícios, abusos e violência. Por tal motivo, afirmou, é importante que se reconheça de onde nascem estas críticas e como responder a elas.
«É verdade que muitas vezes algumas famílias não são fonte de virtudes, e sim núcleo de problemas», reconheceu Donati, que também é diretor do Centro de Estudos de Política Social e Sociologia Sanitária da Itália (CEPOSS).
A sociedade contemporânea, sublinhou, faz da família uma mercadoria, a privatiza e a reduz e, por outro lado, o Estado não ajuda a família porque subtrai dela sua função educativa, para depois culpá-la de ter uma crise educativa.
Outro problema, mencionou Donati, é a pouca conciliação que existe entre o trabalho e a família, pois o tempo para ajudar os filhos se vê reduzido.
O catedrático, autor de mais de 600 publicações em vários idiomas, expressou que uma família virtuosa não implica só a virtude dos particulares, mas também inclui a da família como uma pessoa moral.
Do mesmo modo, mencionou que a família é a base primária para o desenvolvimento das virtudes sociais, devido à confiança que gera, à capacidade de cooperar e à reciprocidade, e isso é o que a converte em «capital social».
Dessa forma, assinalou, é importante entender que este «capital social» não vem só de uma família, mas que surge da inter-relação destas.
Uma nova reflexão
Pierpaolo Donati convidou a desenvolver uma nova reflexão familiar, já que a família não só cria virtudes pessoais e privadas, mas também sociais, pois é a que nos dá a capacidade de relacionar-nos.
O sociólogo italiano concluiu sua participação falando da importância que a família tem como nexo entre a felicidade privada e pública, ao mesmo tempo em que afirmou que a família é a única capaz de gerar as virtudes que são bem relacionadas e que é necessário fazer um pacto entre sociedade e família e reconhecer o papel da família na sociedade.
Insistiu na idéia de que deve existir uma «cidadania da família»; assim como existe uma relação entre indivíduo e Estado, deve existir entre o Estado e a família, direitos e deveres da família como sujeito social.
CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 16 de janeiro de 2009 (ZENIT.org-El Observador)
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