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Cardeal Bertone será testemunha de nova primavera cultural no México
Fala um dos organizadores do encontro do secretário de Estado com a cultura

Por Jaime Septién

Um novo protagonismo de católicos dedicados à vida acadêmica está aparecendo no México. Tanto em universidades públicas como em instituições privadas surgem iniciativas para o diálogo, a discussão e o compromisso a favor de uma nova relação entre a razão e a fé. 

ZENIT-El Observador entrevistam Rodrigo Guerra, diretor do Centro de Pesquisa Social Avançada (www.cisav.org) e membro do comitê organizador do encontro que o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado, terá com o mundo da educação e da cultura católica no México na segunda-feira, 19 de janeiro, no histórico «Teatro da República», na cidade de Querétaro. 


– Qual é a importância do encontro do cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Papa, com o mundo da educação e da cultura no México?
– Rodrigo Guerra: No México e na América Latina, a fé gerou cultura desde a primeira evangelização do continente. Para homens como Juan de Zumárraga, Tata Vasco, Toribio de Benavente ou Bartolomeu das Casas, o anúncio do Evangelho levava à proclamação de um novo modo de viver nossa humanidade que gerava comunidade, linguagem, arte, compromisso social e instituições educativas ao serviço de todos, em especial dos mais pobres. No contexto atual é preciso reconstruir a ponte que vincula a experiência cristã e tudo aquilo que educa o ser humano para que possa viver à altura de sua dignidade. Por isso, um encontro dos principais responsáveis da educação católica do México com o cardeal Bertone tem um especial significado: deve-se avançar por um caminho iniciado há muito tempo e que hoje é preciso continuar em um novo contexto. 


– O encontro que se realizará em Querétaro tem como título «A realização da razão no horizonte da fé». Este tema não é por acaso muito teórico para uma realidade muito prática e concreta que se vive no México hoje?
– Rodrigo Guerra: A fé não é uma teoria, é a certeza pessoal que brota do encontro com Jesus. Por outro lado, a «razão» sempre é a razão de alguém, de um sujeito concreto, com uma história singular. O tema do encontro com o cardeal Bertone, por isso, não versa sobre conceitos ou teorias. As relações entre a razão e a fé sempre possuem um caráter personalista, ou seja, são relações entre um eu humano e um tu infinito que se revela livremente e que abre um horizonte novo para a vida. Quando a razão reaprende a realizar-se no horizonte da fé, nada fica sacrificado. Ao contrário: nossa inteligência fica potencializada, já que se propõem novos temas, perguntas e desafios por causa do encontro com uma realidade maior que ela. 


– Como é o mundo da educação e da cultura que o cardeal Bertone vai encontrar no México?
– Rodrigo Guerra: Não é fácil caracterizar um cenário grande e complexo em poucas palavras. Por uma parte, o pensamento liberal mexicano marcou algumas das mais importantes elites educativas há mais de um século. A idéia de que o cristianismo não tem direito de existir na vida pública e que só deve reduzir-se à prática privada e ao folclore para os turistas ganhou um amplo território. Em algumas universidades, ser científico e ser crente são realidades praticamente excludentes. Por outro lado, deve-se reconhecer que os católicos dedicados à vida acadêmica em certas ocasiões caem no intimismo ou na redução moralista da fé cristã a uma proposta de «valores». Ambos os fenômenos se entreteceram e dificultaram que a fé projete sua luz no mundo da educação, a ciência e a cultura de um modo criativo e altamente incidente. 

Agora, este cenário problemático está acompanhado de um movimento simultâneo sumamente esperançoso: uma nova geração de acadêmicos católicos está emergindo em diversos lugares e ambientes. Muitos deles são pessoas nascidas depois de 1960 e que ficaram desencantadas pelas ideologias que ofereciam salvação através do Estado ou do mercado. Outros são católicos que perseveraram na fé em meio a ambientes educativos adversos e que hoje, ao ver Bento XVI, encontram motivos renovados para empreender um novo protagonismo. Finalmente, estão também muitos jovens que viveram sua infância acompanhados pela figura de João Paulo II e que ao finalizar seus estudos universitários sabem que é possível e necessária uma fé que ilumine a razão e uma razão ampliada que esteja disposta a acolher a irrupção do acontecimento cristão. 


– O que o México precisa para que este incipiente movimento de renovação da cultura cristã possa consolidar-se e dar frutos?
– Rodrigo Guerra: Minha hipótese pessoal é que são necessárias três coisas fundamentalmente. A primeira é recuperar a centralidade de Cristo. O cristianismo só é significativo para a vida e para a razão das pessoas quando se descobre como uma experiência de encontro, de comunhão, de fascinação diante de uma pessoa que cumpre as exigências do nosso coração e as excede. Em segundo lugar, é necessário criar novos espaços e novos métodos para que a fé gere cultura, ciência e paixão pela verdade. Bento XVI disse recentemente: «O novo diálogo entre fé e razão, que se faz necessário hoje, não pode ser levado a cabo nos termos e modos como se realizou no passado». Em terceiro lugar, é preciso que os católicos entendam que a colaboração entre diversos carismas e instituições é fundamental para testemunhar a comunhão que torna a fé crível. Só quando os diversos carismas eclesiais colaboram generosamente entre si, superando desconfianças, o único Cristo se repropõe diante do mundo e a experiência educativa cristã se torna via para que todas as pessoas, todas as sensibilidades, todas as perguntas e inquietudes possam encontrar uma acolhida evangélica e assim possa surgir um novo protagonismo na vida social dos nossos povos.


– O Centro de Pesquisa Social Avançada (www.cisav.org) é a instituição anfitriã que a Conferência do Episcopado Mexicano escolheu para a realização do encontro com o cardeal Bertone: o que este evento significa para vocês?
– Rodrigo Guerra: Para o CISAV, este encontro não só é uma grande honra, mas uma ocasião providencial. Nascemos como uma comunidade acadêmica dedicada à pesquisa avançada em filosofia, bioética, estudos sobre família e ciências sociais.

Dom Mario de Gasperín, bispo de Querétaro, e Dom Carlos Aguiar, presidente da Conferência do Episcopado Mexicano (CEM), foram verdadeiros pais que alentaram nosso trabalho desde o começo e nos animaram justamente a viver plenamente nossa identidade leiga, a cultivar o máximo rigor científico e uma verdadeira abertura à fé. Os discursos do Papa Bento XVI sobre fé e razão se tornaram programáticos para nós. Por isso, ter a oportunidade de colaborar junto com a diocese de Querétaro e a CEM na organização deste encontro sobre «a realização da razão no horizonte da fé» nos confirma em nossa missão e nos anima a perseverar com humildade nela. Desta maneira, nós nos unimos ao caminho que percorreram antes de nós importantes instituições como a AMIESC, que reúne as universidades de inspiração cristã, a CNEP, que reúne as escolas privadas, e o Instituto Mexicano de Doutrina Social Cristã (IMDOSOC). Também nos unimos ao movimento que está gerando a nova «Rede Acadêmica Fides et Ratio»

www.redfidesetratio.org), que já abraça numerosos pesquisadores e docentes de universidades públicas e privadas do México e de alguns outros países. Como em outros momentos da história, nossas pobres forças e nossos limitados planos são ultrapassados pelo Espírito, que atua onde quer e quando quer. 

QUERÉTARO, quinta-feira, 15 de janeiro de 2009 (ZENIT.org-El Observador)

 

 

 

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