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Escravos das ideias alheias?

Recordam-se, este ano, os 530 anos desde a primeira vez que se editou um livro em Portugal. Decorria o ano de 1487 quando Samuel Gacon, tipógrafo de origem judaica, imprimia o primeiro livro, através do sistema inventado por Gutenberg, em solo português. A obra foi o Pentateuco, em língua hebraica, e foi impressa em Faro. Dez anos volvidos e com a mesma técnica de impressão, Rodrigo Álvares, tipógrafo luso, imprimia o primeiro livro na língua de Camões: Constituições que fez o Senhor Dom Diogo de Sousa, Bispo do Porto.

 

Em memória destes acontecimentos, a Sociedade Portuguesa de Autores lançava, em 1988, uma iniciativa inédita: o Dia do Livro Português. Este dia, assinalado a 26 de maio, contou com um vasto programa cujo centro era o livro. Naquela manhã de sábado, o antigo Fórum Picoas abria as suas portas para uma grande exposição sobre esta temática. Os corredores alborotavam-se e neles cruzavam-se escritores e ilustradores, editores e livreiros, jornalistas e os interessados na notícia do livro. Na mensagem do Presidente da República de então, Dr. Mário Soares, vinha expresso que «defender e divulgar a nossa língua e a nossa cultura é, por isso, um verdadeiro imperativo nacional, uma responsabilidade de todos […]».

Os livros, a nossa língua e cultura eram então sinónimos! Definiam a expressão de um povo transmitida pelas nossas palavras e encarnada nos livros! Tudo isto era, então, importante defender e divulgar, na alocução do Dr. Mário Soares.

Como celebração organizada, este dia jamais se viria a repetir, como se o livro português perdesse espaço no ambiente cultural e linguístico que sustenta e a que chamamos Portugal. Provavelmente, o desinteresse pela leitura é proporcional ao interesse numa comemoração de um dia dedicado ao livro português. E talvez o desinteresse pela leitura seja inversamente proporcional à edição de livros. Há cada vez mais livros e cada vez expressam menos a nossa língua e a nossa cultura, e por essa razão não nos vemos obrigados a defender Portugal pelos livros. Não obstante, uma sociedade que não lê é escrava das ideias alheias. Será o que somos?

Na origem daquele Dia do Livro Português estava a memória do primeiro livro impresso em terras lusas. Um livro que curiosamente, ou não, era o Pentateuco. Uma obra onde Deus fala e tudo cria pela sua Palavra. Efetivamente, Deus não fala como nós; esta é uma imagem usada para dizer que Deus Se comunica. Uma imagem de que nos distanciámos, porque Deus cria comunicando-Se, e nós comunicamo-nos para destruir. Aproximamo-nos muito mais da ideia de Virgílio Ferreira, no livro Aparição, para quem as palavras são como pedras. Nós usamo-las como ninguém.

Estamos a destruir a nossa cultura e, consequentemente, cairá em derrocada a nossa língua. Prova disso são os índices de leitura dos portugueses, os mais baixos na Europa! Queremos tanto ser iguais aos outros, em nome de ideais modernos, que estamos a perder aquilo que tínhamos.

Sempre fomos um país com matriz cristã. Naquela época em que os livros tinham importância, do sul ao norte do país, naquela época em que pouco se imprimia, mas aquele pouco era de qualidade e expressão daquilo que somos. Naquela época, pelo menos desde Gacon a Álvarez, continuavamos a ser um país de matriz cristã e aqui conviviam três religiões e quatro línguas. Os livros, esses, tinham a capacidade de expressar tudo isso: aquilo que éramos.

Hoje recusamos a nossa matriz cristã, afirmando que a sua hegemonia acabaria com aquilo que queremos ser. Queremos ser sem ler, como se fosse possível! Nós não somos só aquilo que comemos, somos aquilo que lemos, porque nem só de pão vive o homem, já dizia Alguém que, entretanto, não se pode pronunciar, correndo o risco de inviabilizar a liberdade dos outros.

Provavelmente não interessa que leiamos, nem interessa muito celebrar o Dia do Livro Português. Correríamos o risco de perceber que há muitas “verdades” ditas que nunca foram escritas, porque lhes falta consistência. Vivemos num mundo de slogans, a maioria deles cedida por outras línguas e culturas. Slogans que não estão nos livros, porque não são capazes de materializar por palavras a nossa cultura, porém, tornaram-se quase culturais.

Voltemos, então, aos livros e aos tempos idos em que por eles se defendia a nossa língua e aquilo que podíamos chamar de cultura.

Artigo por Pe. José André Ferreira, ssp e publicado em Síntese de março-abril 2017