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A Comunicação em termos pastorais

Fátima, 21 de Janeiro de 201

1. Introdução

 

“Quanto prazer nos trará este diálogo doméstico, em plenitude de fé, de caridade e de obras! Quão intenso e familiar o desejamos! Quanto ambicionamos que tenha conta de todas as verdades, de todas as virtudes e de todas as realidades do nosso património doutrinal e espiritual! Quão sincero e comovido o pretendemos, na sua genuína espiritualidade! Quão pronto a recolher as vozes múltiplas do mundo contemporâneo! Quão apto a transformar os católicos em homens verdadeiramente bons, prudentes, livres, serenos e fortes!” (Paulo VI, Ecclesiam suam, 64).

O Concílio Vaticano II e o magistério pós-conciliar interessaram-se e muito pela comunicação, especialmente a comunicação social. O Decreto conciliar “Inter mirifica” (04.12.1964) trata dos grandes meios de comunicação social (imprensa, cinema, rádio, televisão) que “atingem e movem não só cada um dos homens, mas também as multidões” (n. 1). Traçando apenas grandes princípios doutrinais, o Decreto conciliar, no nº 23, determina que “para que os princípios deste sagrado concílio e as normas acerca dos meios de comunicação social se levem a efeito, publicar-se-á, por expresso mandato do Concílio (…) uma instrução pastoral…”.

Esta instrução pastoral surgiu em 1971 (23.05) com o nome “Communio et Progressio”. É um longo documento sobre a pastoral da comunicação, sobretudo a comunicação social, dedicando, no entanto, 13 parágrafos (113-125) à mútua comunicação na vida da Igreja, dentro do II Capítulo dedicado aos “benefícios que podem prestar os meios de comunicação aos católicos”.
Fundamentando-se na eclesiologia do Concílio, a instrução pastoral refere-se ao “diálogo no seio da Igreja”, antes de falar do diálogo da Igreja com o mundo.
“A Igreja esforça-se por aumentar e aprofundar os elos de união entre os fiéis, para o que é indispensável a comunicação e o diálogo entre católicos” (nº 114).
“Para isso é necessário que os católicos se consciencializem daquela verdadeira liberdade de expressão do pensamento que o «sensus fidei» e a caridade lhe conferem. (…) As autoridades responsáveis favoreçam e procurem que exista na Igreja, graças à liberdade de expressão e de pensamento, uma troca legítima de opiniões” (nº 116).
Para que tal se verifique, a instrução pastoral reconhece que “é necessária a cada fiel a possibilidade de encontrar as condições indispensáveis para poder desempenhar um papel activo na vida da Igreja. Na prática, significa ter acesso aos meios de comunicação social, não só os de grande difusão, mas até aos que podemos caracterizar como «católicos», este últimos podem se criados onde se julgue necessário…” (nº 119).

Em 22 de Fevereiro de 1992, o Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais publicou uma segunda instrução pastoral, “Aetatis Novae” motivada pelo aparecimento de novas tecnologias – novas potencialidades, mas também novos problemas – na comunicação, fazendo do novo mundo das comunicações “o primeiro areópago dos tempos modernos”, tornando os meios de comunicação social “o principal instrumento de informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e sociais”, como escrevera no ano anterior João Paulo II na encíclica “Redemptoris Missio”, nº 37.

No nº 10 desta instrução, há uma referência à comunicação no seio da Igreja: “A tudo o que acaba de ser dito, convém acrescentar o importante apelo do direito ao diálogo e à informação no seio da Igreja (…) e a necessidade de continuar a procurar meios eficazes para favorecer e proteger este direito (…). Referimo-nos, entre outras, às afirmações do Código de Direito Canónico, segundo as quais, obedientes aos Pastores da Igreja, «os fiéis têm o direito de (lhes) manifestar as suas necessidades, principalmente espirituais, e os seus anseios» e acrescenta que, de acordo com a ciência, a competência e o prestígio, estes fiéis têm «o direito e, às vezes, até o dever» de manifestar aos Pastores a sua opinião sobre o que afecta o bem da Igreja” (cf. cân. 212.2 e 212.3).
Mais à frente: “… existe uma igualdade natural de dignidade e de missão que provém do baptismo e está na base da estrutura hierárquica e da diversidade dos cargos e das funções. Esta igualdade exprimir-se-á numa partilha honesta e respeitosa de informação e das opiniões”.

  1. A Comunicação no interior da Igreja

 

A reflexão católica sobre a comunicação centra-se, na maior parte das vezes, na comunicação da Igreja para o exterior (utilização dos meios de comunicação para evangelizar) e na comunicação social para o interior da Igreja (formação dos agentes cristãos e educação dos utilizadores). A comunicação no interior da Igreja não tem sido motivo de igual atenção e, no entanto, esta é fundamental.
A Igreja é comunidade, é comunhão porque nasce e é sacramento da comunhão trinitária.
A Igreja é Povo de Deus, diversificado nos seus membros e comunidades, é essencialmente uno na fé, esperança e caridade: “unidade católica” (cf. LG 13) que cresce na partilha dos bens espirituais e dos materiais, como na primeira comunidade de Jerusalém (cf. Act 2, 42-45), na comunhão (koinonia) que é fonte, e também fruto, da comunicação entre indivíduos e comunidades.
A Igreja é comunidade hierárquica em que se coordenam diferentes vocações e ministérios ao serviço de todo o Povo e da sua missão. A comunicação exprime e favorece a participação corresponsável de todos os fiéis.
A comunicação tem, pois, na Igreja não apenas uma qualidade funcional, mas essencial.
Nas suas realizações históricas variadas, a Igreja sempre mostrou a sua natureza comunicacional, nas mais diversas linguagens: a celebração litúrgica, a disposição do espaço litúrgico, os paramentos, os vitrais, as esculturas e pinturas, a música, os sinos…
Comunicar é tornar comum o conhecimento, os sentimentos, os anseios, os propósitos. Comunicar é, na Igreja, fazer crescer a comunhão, a fraternidade, a corresponsabilidade.
Evangelizar é comunicar de dentro para fora da Igreja. Esta comunicação, mesmo quando utiliza os grandes meios da comunicação social e as novas tecnologias, está sempre ligada – e dependente – da comunicação no interior da Igreja, pois esta começa a ser evangelizadora a partir de si mesma, enquanto comunidade integradora de todos os seus membros na comunhão que vem de Deus. É assim que ela se apresenta como sinal e instrumento da unidade de todo o género humano (cf. Lumen Gentium, 1). Não é possível haver unidade e comunhão sem comunicação.

A eficácia da comunicação da Igreja para e com o mundo depende, pois, muito da qualidade comunicativa interna, no seio das comunidades cristãs, a nível das paróquias, das dioceses e universal.

  1. Os meios da comunicação no seio da comunidade

 

A comunicação precisa de meios. É necessário, para extrair deles a maior eficácia, escolhê-los e utilizá-los com critérios que as ciências da comunicação hoje nos disponibilizam. Existe actualmente o maior cuidado, na gestão empresarial, pela comunicação, não apenas com o público, mas no interior, entre os vários intervenientes no trabalho da empresa, desde os administradores aos que exercem as tarefas mais simples.
A Igreja não é empresa, mas é “empreendimento” cuja origem divina não dispensa, antes integra necessariamente, os recursos humanos.

A Igreja continua a utilizar meios tradicionais: o “púlpito”, o boletim paroquial, o cartaz, a correspondência postal, as reuniões… Em algumas comunidades já existem, além destes, recursos mais recentes, como a internet (portal, redes sociais…).

Todos os meios, tradicionais e recentes, são importantes. Poderão, uns e outros, ser utilizados de maneira a gerar verdadeira comunicação ou, pelo contrário, a perturbá-la ou até a inviabilizá-la.

  1. A comunicação pode ser dificultada:

 

- pela desvalorização de aspectos fundamentais da comunicação oral e escrita (psicológicos, físicos, ambientais, gráficos, semânticos…);

- pela falta de rigor, de actualidade, de clareza na comunicação “formal”, o que gera redes de comunicação “informal” pelas quais circulam informações imprecisas ou até distorcidas, boatos, que alteram não só a verdade daquilo que se quer comunicar, como criam um ambiente de perturbação e, posteriormente, de desinteresse pela vida comunitária que a comunicação pretende promover;

- pela desatenção aos aspectos pessoais da comunicação; no centro da comunicação está a pessoa; é necessário cuidar não apenas da qualidade formal da comunicação, mas também dos comunicadores e da relação humana que envolve a comunicação, mesmo quando esta não é presencial: capacidade de acolhimento, alegria, assertividade e todas as virtudes cristãs que promovem e servem a relação fraterna.

“O espírito de independência, de crítica e rebelião concorda mal com o amor que anima a solidariedade, a concórdia e a paz na Igreja. Esse espírito transforma facilmente o diálogo em discussão, rixa ou desavença: coisa desagradabilíssima, com que infelizmente sempre se deve contar. Por isso nos acautelava o Apóstolo São Paulo: "Não haja entre vós divisões" (1 Cor 1, 10). (Paulo VI, Ecclesiam suam, 66).

 

  1. Órgãos privilegiados da comunicação intra-eclesial

Os conselhos pastorais previstos a partir do Concílio e estruturados por normas consagradas no Código de Direito Canónico (1983) para as dioceses e paróquias são essencialmente órgãos de consulta ao serviço do ministério ordenado. Para atingir esse fim, eles promovem o diálogo e a comunicação entre os seus membros e, através deles, dos grupos, movimentos e comunidades que os membros representam. São, pois, estruturas privilegiadas de comunhão e comunicação, não apenas no trabalho que realizam nas suas reuniões, mas naquele que desenvolvem antes e depois das reuniões.

Estes órgãos têm, na perspectiva da comunicação, duas dimensões fundamentais: uma no sentido da periferia para o centro; outra no sentido inverso: do centro para a periferia.

A dimensão “centrípeta” consiste em trazer à reflexão, estudo, ponderação do conselho (portanto, dos pastores e de toda a comunidade) a realidade religiosa, social, cultural, económica da população na qual a comunidade (paróquia ou diocese) se situa e para a qual é enviada a levar o Evangelho. Trata-se de preparar e planificar a acção pastoral a partir do conhecimento da realidade, pondo em prática a palavra lúcida e sempre actual de Paulo VI na sua encíclica “Ecclesiam Suam” (06.08.1964): “Antes de convertermos o mundo, e precisamente para o converter, é necessário que nos aproximemos dele e lhe falemos” (nº 39). Esta missão de levar ao conselho, a começar pelo bispo ou pároco, a realidade viva dos vários ambientes humanos é de grande importância, pois exige atenção, diálogo, investigação, reflexão, oração.

A dimensão “centrífuga” consiste na transmissão à comunidade, concretamente às paróquias (no caso do CPD) aos grupos, estruturas e movimentos, não apenas das informações emanadas do conselho, mas sobretudo do dinamismo pastoral missionário, mobilizador de toda a comunidade, que foi assumido, sob a autoridade do seu presidente, como fruto da reflexão do conselho.

Nestes órgãos têm assento também os responsáveis das associações de fiéis (movimentos, obras…). É o lugar próprio para a comunicação e estabelecimento de uma coordenação pastoral que envolva movimentos e grupos paroquiais.

Para além destes órgãos que existem precisamente para estimular e organizar a comunicação entre todos, há lugar para a criatividade (não improvisação) na criação de situações de comunicação, entre as quais as iniciativas culturais e lúdicas.

 

Conclusão: A comunicação supõe uma “espiritualidade de comunhão”

Estarão estes órgãos a promover, em ambas as dimensões, a unidade na acção, a comunicação entre todos? É uma tarefa muito importante, mas não fácil.

Exige, em primeiro lugar, uma consciência muito clara da responsabilidade individual e de grupo, numa vontade corajosa de ser parte e de servir a comunidade, uma criatividade e uma alegria interior para se deixar seduzir pela novidade nos empreendimentos. Implica cultivar a “espiritualidade da comunhão” de que falou João Paulo II: “Espiritualidade da comunhão significa também a capacidade de sentir o irmão de fé na unidade profunda do Corpo místico, isto é, como «um que faz parte de mim», para saber partilhar as suas alegrias e os seus sofrimentos, para intuir os seus anseios e dar remédio às suas necessidades, para oferecer-lhe uma verdadeira e profunda amizade” (Novo millennio ineunte, 43).
Quem estiver informado por esta espiritualidade, como não correrá até aos outros para estabelecer comunicação? Quem hesitará ou adiará a tarefa de passar a mensagem aos outros usando os meios que tem à sua disposição e procurando sempre meios mais perfeitos e eficazes na comunicação? Quem desvalorizará a partilha com os outros em nome do seu comodismo individual ou da auto-suficiência do seu grupo?

Falta comunicação? A comunicação é deficiente? Estude-se e melhorem-se os meios e as técnicas, mas sobretudo converta-se o coração à comunhão para que seja conatural à vida eclesial tornar comum (=comunicar) o que se tem, o que se sabe, o que se faz, o que se sonha fazer.

Pe. José Lobato






 
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